2010/02/26

Reflexões

Encostada à porta entreaberta, via o vulto que de si se afastava com um ar de quem vai para outro planeta, e que se demora a regressar. Era a segunda vez que ele saia assim, bem aprumado, chapéu na cabeça e pasta na mão, como se fosse buscar fios de alma num mundo no qual ela não podia entrar. Ele não queria. Olhava-o silenciosamente, com a acomodação de quem se habituou a estar ali, no jardim onde aparava os restos dele que ficavam por cumprir nesse tal mundo, a vê-lo partir, sem o acompanhar. Era um local dele, onde ela não existia, onde se perdia o peso do que sentiam e viviam no jardim, de onde ela não saía. Tudo na vida dele era assim compartimentado. Com uma organização fora do comum, planeava tudo – o que dizia,o que vivia, o que sentia – ao mais pequeno pormenor, como se só assim mantivesse a estabilidade do barco que tentava manobrar. E ai de quem lhe mexesse nos papéis! E nas palavras? Nem se fala! Cada uma tinham o seu espaço, o seu contexto, e não se poderiam proferir noutro, sob pena de misturar os locais que pisava e baralhar a vida que ele queria. Não! Nada se poderia intersectar. Palavra-sentimento-local, bem divididos, para que jamais alguém fosse preciso como outrora ele havia precisado, e lhe fugisse novamente com todas as palavras, deixando-o vazio.
Ficou a observar o ponto que ia definhando ao longe, com a ajuda do sol que dificultava a contemplação do horizonte. Estagnada, com uma calma que transparecia dela, mesmo nos dias em que fervia por dentro e precisava que sons de água lhe acalmassem o espírito, permaneceu no alpendre por longos minutos, a inspirar o ar que, de tão seco e quente, custava a entrar, ardendo-lhe a garganta e os pulmões. Só lhe arrefecia o coração, e ninguém o sentia. Nem mesmo ele que, por sinal, já nem se via. De repente, lágrimas começaram a desafiar o vento árido daquele país, humedecendo-lhe a cara e as forças, que estavam perdidas pelo calor. Cuidara sempre dele, tratara-lhe as feridas e afastara-o dos fantasmas de dias em que o mundo não havia sido suficientemente dele. Tratara-o como a outra asa, o par perfeito, elo fechado que ninguém poderia quebrar. Mas ele quebrava-o, vezes sem conta. Mais do que ela conseguira aguentar, mesmo desculpando-o e relativizando o que ele fazia com todas as situações que o punham para baixo. E ele partia, e ele esquecia, e ela ficava. Sempre.
Lentamente, fechou a porta nas suas costas. Fixou um ponto à sua frente, mesmo desconhecido, e partiu. Algures à frente encontraria alguém que fosse também dela, e que não a escondesse por ermos inalcançáveis. Algures à frente entraria quiça, sem dar conta, no mundo dele outra vez.

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2010/01/25

...

Quero ser eterna,
Como se das minhas entranhas exalasse o perfume do mundo,
E se confundisse com os demais.

Quero ser livre,
Guardar a chave do céu que me ilumina,
Para que só eu lhe possa mudar a cor.

Quero ser grande,
E colher por mim os mais altos frutos de tudo o que semear,
E deixá-los a conservar a minha essência.

Quero ser eu,
Olhar aberto e fechado que observa tudo o que me toca,
Voz que canta a vida e que cala.

Ser plena, e não ser nada.

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2009/07/12

Truques de Morpheu

A média luz de um pôr do sol de Verão entrava pela janela, alta e imponente, iluminando a secretária de pinho escuro, cuidadosamente trabalhada, com motivos florais em baixo relevo. Tudo naquela sala ganhava naquele instante um ar vivo… até o pó que, com aquele raio quase celestial se tornava perceptível ao olho humano, sem grande esforço. A divisão não era muito grande, das mais pequenas aliás, naquela mansão de quinta de vários hectares, de pedra escura e amplas portas de madeira maciça, que se erguia majestosamente na grande clareira no meio de hortas, jardins, e velhas faias, túmulos de grandes segredos.
De vestido beige, com leves detalhes bordados a uma seda fina, de um burgundy brilhante e muito rico, uma figura permanecia, no centro da sala, como se um raio a tivesse aí imobilizado, e a levado para outro mundo sem se dar conta. Uns papéis meio riscados, uma pena e um tinteiro meio gasto, completados por uma pilha de livros caídos no chão, repletos de histórias que não havia vivido, e pelas quais também se perdia, mostravam quão ligada era à fantasia de quem escreve, e é pela escrita inebriado. Reclinada na grande poltrona virada para a janela, ela lia a última carta recebida, daquele pelo qual o seu corpo reagia; o coração batia mais forte, o estômago apertava sem fome alguma, os olhos enublavam de emoção. “Quero ficar contigo por quanto os Senhores do Tempo nos deixarem, dar-te a mão num sorriso aberto, sem nada dizer, que, palavras, já as gastamos no presente, quando os corpos estão ausentes, e restam apenas elas para nos unir”. Ele não era o mais romântico dos homens, nem o mais eloquente nos devaneios de paixão e amor, que ela observava nos casais que a rodeavam, muitos deles tão verdadeiros como um dia de calor no Natal gelado daquela região. Mas tinha coragem, vontade e um ímpeto de percorrer os trilhos que avista como seus, independentemente dos percalços que à frente pudessem surgir. E ela gostava de aventura… como gostava! Num mundo em que o toque era condenado, e as mulheres um adorno que se comprava para certos fins dentro de uma casa, ele olhava através dela, vindo ao seu auxílio sempre que ela o procurava, de saudades, ou de sufoco, quando o espartilho não lhe apertava apenas a cintura, que era já muito fina, mas também a alma, essa, da imensidão do universo que se desconhece.
E ele vinha, sem se esquecer por instantes de que a par de um grande amor, também a cumplicidade, a amizade, e a lealdade construíam um futuro luminoso. O primeiro, sem estas, nada seria. Cuidavam um do outro, assim, como quem nunca se esquece de uma planta que tem de regar, dizendo-lhe nas horas certas, quando era necessário, aquilo que precisavam ouvir, e que o coração não mentia. Ele sabia que, se negligenciasse um momento, perderia aquela que fazia já parte dele, sem se aperceber, de tão entrelaçadas que estavam as suas mentes, e as suas raízes. E ao mesmo tempo eram livres, especialmente de grilhões impostos pela sociedade que não reconheciam como ditadora dos seus destinos, olhando para o horizonte como uma meta, não uma fatalidade.
Na languidez de um estar parado a pensar um sentimento, naquele fim de tarde, um barulho estridente acorda o ser singelo de carta na mão. Abriu os olhos assustada, como que invadida por uma força de um filme que esvazia a memória, e observou a luz matinal que tentava banhá-la de realidade. Eram sete, e o despertador lembrava-a que tinha uma rotina a cumprir. Os móveis comprados nos grandes armazéns de mobiliário, que uniformizam lares, todos semelhantes, sem o toque humano de uma mão incapaz de fazer dois objectos iguais, não tinham a imponência da sala sonhada. O lado direito da cama permanecia vazio, lembrando que nem todos tinham coragem e paciência para tentar percorrer o tempo com a calma de um sacerdote hindu, como fazia aquele que tinha deixado no mundo dos sonhos. Nem a humildade de um “sei viver sem ti, mas não quero”, quando tal for sentido, mesmo que o sentimento seja uma chama que, apesar de não nos deixar, nem sempre se mostra com a mesma força, ou intensidade, o que nos levaria ao desgaste fatal ou apatia total.
Suspirou, tornou-se mortal por mais um dia, enquanto o sol não se põe, e, com o peso da vida mesquinha daquele país nos seus ombros, levantou-se para mais um dia de trabalho…

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2009/06/30

Ficção? III

Aquele pátio de centro comercial menor era bem iluminado. Com certeza, como acontece nos filmes, alguma das três câmaras dispostas nos bancos poderiam reconhecer a face daqueles que, no banco de trás, lhe tiravam a liberdade.
-- Agora vão vocês e eu fico com ela, depois vamos nós.
A voz mantinha a firmeza daquele que não podia deixar cair a máscara de agressor, sob pena de ver o seu lado humano vulnerável perante as vítimas que, naquele momento, deviam temê-lo apenas. Mafalda acedeu à ordem, e saiu, com o que, atrás de si, mantinha o boné enterrado, como um cão que ladra, ladra na penumbra, mas sem coragem de morder.
-- Não olhes para mim!
-- Fica descansado, não olharei. Mas como queres fazer?
-- Mostra o saldo!
-- Pode ser no ecrã para não gastar papel?
-- Pode!
Não tinha muito dinheiro. Não chegava sequer ao limite de levantamento diário por pessoa. Com ela sabia que também não iam longe. Seria toda uma acção praticamente em vão para os agressores, já que eram os rotos a roubar os mal remendados.
Dirigiram-se ao carro, de onde saíram, por sua vez, Inês e o temível, que mantinha a arma branca na mão, como lembrança de ameaça constante. O procedimento foi o mesmo, embora com maior lucro.
No carro, Mafalda tentava ocupar o silêncio que congelaria todos os seus músculos de temor conversando com o seu novo “parceiro de viagem”.
-- Tem um sotaque diferente, é estrangeiro não é?
-- Não, não sou daqui. Nasci aqui.
Estava a mentir, com todos os dentes que tinha, mas Mafalda não quis continuar. Seguiu a via da simpatia, quase jocosa, da qual já tinha um diploma de estudos avançados.
-- Olhe, então tem aí o meu telemóvel, que está estragado, mas ele custa 30 euros a arranjar na Nokia, que é já ali, com o dinheiro que lhe dei pode ir lá e ainda fica com o resto.
Incrédulo com a afirmação, o “companheiro” nem respondeu. Entretanto, chegaram Inês e o outro. Seguiram viagem, desta vez até ao local onde eles tinham entrado no carro. Sabiam então que provavelmente estaria para terminar essa jornada, curta em tempo real, mas longa para Inês e Mafalda.
-- Já agora, se não se importarem, ponham os cintos. Não vá a polícia apanhar-nos e somos todos multados.
Os dois obedeceram de imediato ao pedido. Inês sorriu perante o à vontade da amiga, que encontrava ainda formas de tornar a situação o mais normal possível. As duas continuaram a conversa, como se ninguém estivesse atrás, sobre trivialidades da chuva e do vento, até chegarem ao ponto exigido. Pararam. Antes de saírem do carro, o mais feroz ainda disse, meio entre dentes:
-- Agora sigam, não olhem para trás, e, se forem à polícia, nós sabemos onde ela mora.
“Ela”, a Inês, que ficou assustada com tal ameaça, cuja memória iria minar muitos dos seus regressos a casa do trabalho, do shopping, de qualquer destino, a partir daquele momento.
Assim que retomaram o caminho, agora sozinhas, um alívio enorme as fez rir à gargalhada do sucedido, enquanto Inês ia revelando as coisas escondidas no banco. Não sabiam o que fazer, se contavam ou não à polícia. Pararam na Praça principal da cidade, repleta de gente naquela noite primaveril, de saídas em grupo, confiantes de conseguirem telefonar a algum amigo que as ajudasse a pensar o caminho a seguir.
Mafalda sabia apenas um número de cor, um antigo amor, peculiar no seu trato, como a resposta iria mais uma vez comprovar, ao ser-lhe solicitada a presença na praça, uma vez que tinham sido vítimas de um assalto:
-- Oh Mas acabei de pedir a minha tosta mista, quando terminar vou aí ter.
Situação caricata. Muitos outros amigos teriam ido a correr, elas próprias esqueceriam tostas, lagostas, ou qualquer outro pitéu se tal sucedesse a alguém que prezassem. Mas ele era assim, ela conhecia-o demasiado bem para achar estranho ou mal-intencionado.
Quando chegou, com um amigo comum, elas explicaram a situação, e depois de muito ponderarem , decidiram ir à esquadra da PSP, questionar se deveriam ou não apresentar queixa. Pela primeira vez naquela noite, uma sensação de verdadeiro medo invadiu-as de rompante, não queriam estar ali, mas sabiam que tinha de ser .
Expuseram, calmamente, e sempre rodeadas de piadas e risos pela improbabilidade da situação, naquela cidade, naquele dia, a elas, o sucedido ao agente que, admirado com a leveza delas afirmou peremptoriamente:
-- Meninas, isso foi sequestro, é crime de ordem pública. Mesmo que não queiram terei de reportá-lo à Polícia Judiciária. Querem avançar vocês com a queixa?
Num acto de coragem assinaram a papelada já passava das 4 da manhã. No dia seguinte seriam contactadas pela PJ, que lembrariam sempre como os verdadeiros CSI.

(cont.)

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2009/06/09

Ficção? II

Durante uns minutos, os primeiros, o máximo que puderam tentar perceber foi o grau de agressividade dos companheiros que, atrás, mantinham sempre um ar muito frio e agressivo. Mas não ambos da mesma forma. Apenas um ia falando e verbalizando essa violência, não pelas palavras, mas pelo tom que usava, como se fazer aquilo fosse prato normal do seu dia.
-- Ok, faremos o que quer, só não nos façam mal.
-- Não faremos, não se preocupem.
Era o mais alto, menos temeroso de mostrar totalmente a sua cara, enquanto a do outro estaria durante todo o tempo meia escondida pela pala do boné, que usava como máscara de tão para baixo que a colocava. Do retrovisor, Mafalda via apenas aquele que logo identificaram como, provavelmente, o mentor daquela situação, com um olhar decidido, e umas sobrancelhas que arqueavam perfeitamente como um vilão de filme, daqueles dos quais se sai da sala de cinema a temer a própria sombra.
Inês e Mafalda perceberam que a única forma de lidarem bem com a situação seria aquela que melhor sabiam, de dentro da sua força e cumplicidade, interagirem de uma forma simpática, sempre sorridente, quiçá escondendo o seu próprio pânico, ou procurando despoletar nos dois invasores alguma simpatia lá no fundo, para um final feliz. Mafalda seguia as ordens enquanto falava sobre trivialidades, permitindo a Inês, com o ruído que provocava, esconder os Ipods e o único telemóvel que tinha a certeza que não iria tocar por debaixo do banco, numa gavetinha quase invisível, para qualquer objecto menor ou documento. De tão discreta que foi, nem Mafalda percebeu bem as movimentações da amiga, ao lado, continuando em direcção a um dos locais mais escuros da cidade, onde foram mandadas parar.
-- Passem todo o dinheiro e telemóveis!
A ordem era clara, e foi cumprida com rapidez. Logo, as duas deram os telemóveis e abriram prontamente as carteiras para esvaziar todo o seu conteúdo que, para recém-licenciadas, no primeiro emprego, nunca seria muito. Mas era delas!
Passados uns segundos de hesitação uma delas ousa pedir os chips dos telefones, sem os quais perderiam todos os contactos com amigos, que moravam já noutras cidades, noutros países, com os quais não estariam facilmente para os reaver.
-- Com certeza!
A frase mais proferida por ambos, que autorizaram o pedido e logo tiraram o cartão, que devolveram sem resistência. Vendo o mais discreto, e ouso, mais pacato, em dificuldades para retirar o seu, Inês prontamente diz, a sorrir:
-- Ele tem uma manha para abrir a tampa, eu ensino como é.
E ajudou-o a conhecer o objecto que era, pela última vez, seu. Anéis e colares, que também pediam, não tinham nenhum de valor, apenas aqueles que podiam comprar nas lojas de acessórios, para complementar qualquer roupa que usassem. Menos mau.
-- Agora saiam do carro!
Disse, a medo, o boné falante, revelando a intenção primária de ficarem efectivamente com o carro, se não de algo pior. Naquela zona, nunca se sabe.
-- Não! Vamos apenas ao multibanco!
Retorquiu imediatamente, para espanto de ambas, o de ar mais pesado, o de semblante de criminoso nato.
-- Ok, e para onde querem ir?
Mafalda não sabia para onde conduzir. Multibancos havia muitos, e ela temia qualquer passo em falso.
-- Bairro do Pinote!
Um dos bairros mais temidos daquela região, nos quais, mesmo os autóctones se esquivavam de passar à noite, para não serem apanhados em tiroteios ou querelas alheias. Sem hesitar, e sem saber muito bem de onde, já que Mafalda sabia que para aí não podiam ir, tentou:
-- Bairro do Pinote?! Isso é muito longe! Há multibancos mais perto daqui, ali ao lado há vários.
“Ali ao lado” era uma zona comercial, muito iluminada, onde os carros passavam continuamente. Sentir-se-iam aí muito mais seguras do que no Bairro pedido. Havendo naquela zona três agências bancárias, pensou que as câmaras de vigilância as poderiam ajudar, quiçá, mais tarde. Estacionaram.

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2009/06/03

Ficção? I

Uma e vinte da manha naquela cidade pacata que, na Primavera, se cobria de um manto creme, fofinho, maldição para todos aqueles que sofriam de problemas respiratórios. Naquela noite, Mafalda e Inês acabaram o expediente tardíssimo, depois de arrumarem todos os objectos preciosos que mantinham em exposição na Praça Principal, local anual para a Feira Internacional de Lãs e Artesanato de Bardalajeira da Serra. Decidiram, para terminar o dia em beleza, beber um batido no café mais próximo, e reconhecido pelos seus gelados cremosos e sabores únicos, coisa que fizeram com grande prazer, sem saber que, durante muito anos, não voltariam a beber um igual. No ar divertido que sempre tinham as duas, Mafalda brincou com a amiga, que encontrara, dentro da sua mala, o telemóvel da associação onde trabalhavam, “trouxeste o telefone , vamos ser assaltadas”, e riram, como se naquela cidade tal fosse possível. Tudo corria bem naquela noite. O dia seguinte seria mais uma jornada de trabalho, quando o sol começa a aquecer lá fora, e as mentes dão azo a divagações coloridas, pelos sonhos daquilo que se espera ter, sempre, na primavera.
Uma da manhã, pagam e rumam para o carro. Mafalda conduziria, já que Inês adiava a responsabilidade acrescida, para ela e para o próximo, de ter um carro nas mãos. No caminho, uma patrulha da polícia seguiu-as durante um pedaço do trajecto que tão bem conheciam.
--Detesto ter carros de polícia atrás de mim, parece sempre que há algo de mau, de errado.
Mafalda desabafou, com um suspiro de alívio quando perderam o carro branco e azul de vista. Vinte minutos e Inês estaria pronta a sair do carro, depois de uns minutos de conversa, certamente sobre assuntos de injustiça no trabalho ou desarranjos amorosos, típicos na vida de Mafalda, interessada apenas por tipos danificados, com problemas de relacionamento, e problemas consigo próprios. Mais uma vez, riram com a cegueira de muitos, estupidez de outros, e até as suas próprias falhas no reconhecimento de muitos sintomas… afinal, à terceira só cai quem é burro. Com um pé de fora, à frente do prédio, eis senão que uma voz vinda de algures sem que se tivessem apercebido muito bem, surge do nada:
-- Entra, sem barulho!
Empunhava um objecto ameaçador na mão, enquanto agarrava Inês pelo braço, para que a única possibilidade fosse mesmo o regresso ao carro, onde entretanto já entrara o companheiro no crime, no banco de trás.
-- Não façam nada, não digam nada, segue!
Sem saberem o que se passaria a partir daí, naqueles primeiros minutos em que tudo o que viam pelos espelhos eram umas caras desconhecidas, com ar perigoso, tudo lhes passou pela cabeça. Inês lembrou a frase da amiga, temendo que o pior lhe sucedesse naquela noite. Mafalda cumpria as ordens do que, na diagonal, a obrigava a seguir determinado caminho, tal qual instrutor durante as aulas de condução, mas sem o charme e atenção que o dela tinha tido. Em segundos estavam na direcção do desconhecido, com o destino nas mãos daquelas figuras que atrás, na penumbra da noite misturada com as cores artificiais, e dentro das suas roupas largas e chapéus enfiados na cabeça, pareciam tiradas dos filmes que, normalmente “so acontecem aos outros”.

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2009/02/13

Regresso do S. Valentim

Feliz dia dos de hoje, dos de sempre, dos ex, dos futuros, dos potenciais e de todos os que optam por estar sozinhos. Feliz dia dos que se amam a si, ao próximo ou ao longíquo. Feliz dia dos platónicos, dos racionais, dos comodistas, dos especiais e dos banais. Feliz dia dos consumistas e dos hyppies. Dos que negam, dos que choram, dos que se revoltam e dos românticos iludidos. Feliz dia porque sim, porque não, porque talvez. Dos que querem, dos que não querem e dos que não sabem sequer. Dos burros falantes e dos suricates que mordem.
Ouçam o Respect, o I'm every woman ou Zé Cid (que também alegra eheheh). Vistam lingerie sexy, olhem-se no espelho e sintam-se bem. Dancem. Comam souffle de chocolate, quindins e cheesecakes. Façam jantares exóticos, com alguém ou apenas com o Malato. Comam morangos com chocolate fundido e champanhe. Excedam-se! O melhor deste dia somos mesmo nós, por sermos especiais e únicos, com ou sem alguém que o confirme!
(Once again, feliz dia amanhã, como todos os outros dias do calendário!!! :) )

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2009/02/10

Conexão NY-Edimburgo IV

Enquanto descia as escadas de madeira do prédio onde era recém-chegada, com a rapidez do stress da pontualidade lusitana, e cumprimentava o porteiro que, cuidadosamente, lhe abria a porta, imagens do que estava para vir e do que foi voltaram, como invasores que ninguém quer, e não se está à espera. À frente do prédio, para a rua, dez degraus tornavam-se agora a ponte para um novo caminho, um postal em branco, o melhor para aqueles que, como ela, pensavam no futuro, mas que, no presente, era muito difícil de aceitar. No topo das escadas, ao ouvir a porta fechar-se atrás dela, algo a deteve, e estagnou. Nem toda a euforia do momento a tinha imunizado da decisão de se separar do lado que alimentava nela os sonhos, e cuidava dos sorrisos enquanto dormia, do seu coração. “Todos os primeiros passos são assim…”, pensava, com a certeza de quem se tenta convencer a si mesmo, mais do que todos os outros, em longas conversas sobre coragem e desafios destemidos, lutas e vitórias sobre dragões ferozes. Sentiu agora a sua força como uma música que passava muito na rádio antes de voar, “I’m strong on the surface, not all the way through”, que trauteava enquanto, como criança envergonhada de sair da sua rede de segurança, acariciava o corrimão, sem descer. Os primeiros passos são assim, difíceis, determinantes, arriscados, mas, normalmente, trazem em si uma alegria única, de quem, finalmente, aprende a andar. Dez degraus era o que lhe faltava passar para tal, mas eles afiguravam-se agora maiores do que o próprio medo que enublava a sua mente, os seus olhos, paralisando os movimentos e a confiança. Lembra-se do primeiro passo dado para uma escola desconhecida, para uma faculdade fria, para tango argentino acabrunhadamente dançado, para uma primeira noite sem se tocarem, para uma queda de água sem temor, ou para um porta-bagagens cheio de memórias que teve de ser esvaziado. Todos, cada um com o seu grau de dificuldade, haviam sido vencidos, revelando pequenas delícias que ela reconhecia tão bem, nos acasos que se mostravam diariamente, e que apenas uma palavra teria mantido, palavra essa que nunca chegou a ouvir, e nunca disse, perdendo a coragem de arriscar na única tentativa que efectivamente queria. Nem os ensinamentos do Master Yoda, “try not, do”, nas horas em que, pequena, se julgava Jedi, a tinham ajudado a desbloquear o caminho, enublado pela única força que ela se recusava a combater, a única que poderia salvar ou impedir o rumo que já os deuses haviam escrito…
Naquele momento ninguém a reconheceria, também, ainda ninguém a conhecia ali naquele mundo tão diferente do seu, para notar a diferença de um bambu a vergar de ansiedade e peso da parte incompleta daquele ser. “Is everything ok, Miss?”, espreita o porteiro, único espectador da agonia dela, face à incapacidade de descer ao passeio, à rua, à nova cidade. “Yes, thank you”, ela mentia com todos os sorrisos que tinha, afinal, nem era ali que ela queria mesmo estar, e só agora se tinha apercebido, respirando o ar que a debilitava, mesmo sem a humidade, outrora razão de noites de respiração difícil, mas que ela desejara, sem se aperceber. Como seria tentar ficar na cidade mais mística que conhecia? Sentou-se a meio, para retemperar as energias que a tinham levado até ali, fossem as correctas, de vontade pessoal e ambição benéfica, ou incorrectas, nas entrelinham das palavras que não se disseram, e que nunca tinham deixado o tempo fluir. Quem diria, ao retirar as coisas da mala, há vinte minutos atrás, que questionaria tudo, e ponderaria voltar atrás, e arriscar não separar o que sentia do que queria?! Nas reflexões dos momentos antes de vir já sabia que, fosse qual fosse a decisão, sem Edimburgo, ficaria sempre dividida, como a personagem do Barco Negro, pela voz inconfundível de Mariza, mas só naquele momento ouvia realmente as velhas loucas da praia a atazaná-la, e a puxar veementemente para o lado escuro da realidade. Mas esse nunca seria o seu lado, eles eram feitos de luz, e essa, é indestrutível. E assim, decidia, observando-se, sem se mexer…

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2009/01/25

Conexão Edimburgo - NY III

Os dias iam passando sem que voltasse aquela vontade de sair à rua e aproveitar as pints com os amigos ao final da tarde no Bobby’s, onde paravam imensos turistas ávidos de uma fotografia de um bem cuidado bar escocês. O inverno de Edimburgo também não convidava às saídas, a verdade era essa. A chuva podia tornar-se implacável e por mais que adorasse a cidade, reconhecia que, embora a neblina mística que a envolvia, tornasse ruas e jardins únicos e misteriosos, dignos de inolvidáveis cenários cinematográficos, ela não atraía a passeios naquela estação. Jamais entenderia também como conseguiam aquelas colegas e amigas que, em plena noite de graus negativos, saiam de casa como se morassem num país tropical, apenas com um casaco por cima, tudo pela feminilidade. Admirava-as, embora não fizessem de todo o género dele. Aliás, se ela conseguia antes trazê-lo livre e alegremente à rua, independente de qualquer adversidade, agora apenas uma razão restava: o futebol, fosse ele um dos protagonistas do jogo, ao qual se entregava ao ponto de chegar a casa com mazelas, que lhe mostrava orgulhoso pelo suor, pele e às vezes sangue dados pela equipa, ou mero espectador dos The Bhoys, que seguia com igual fervor e entusiasmo.
Particularmente neste inverno, entre um emprego que não o satisfazia, ao tempo que dedicava às grandes leituras para a tese que agora começava, ainda mais raros eram assim os momentos para outras correrias, que outrora perseguia com tanto vigor. Perdia-se entre a inércia das decisões diárias que julgava que subestimavam a sua formação académica, sempre à espera de algo melhor, e o reconhecimento da realidade cruel do crescimento para a idade adulta, que afasta amigos, colhe o tempo e turva a alegria. Nas divagações diárias, olhava frequentemente para a bússola deixada por ela, para trás, com a mensagem “encontra-te” escrita a dourado no objecto pequeno e muito trabalhado, como os usados pelos seus ancestrais para a descoberta do Mundo. Tinha o cunho das brincadeiras dela na sua existência, mas agora parecia tão sério, tão necessário, uma bússola, se não daquelas de outras quaisquer, que servisse na busca que ele próprio sentia como vital, do centro do labirinto que ele era. Não olhava para as fotografias dela, contudo, não porque não quisesse, mas, sentado normalmente na secretária, com o computador com vários gigas de sorrisos e felicidade, preferia deixá-las sempre na pasta fechada para não abrir distâncias e saudades. “Porque a saudade dói”, pensava, cada vez que a fraqueza a procurava à sua volta, tal qual uns lábios secos no deserto procuram a água que nunca mais chega. E essa dor, que muitos pensavam uma mera analogia a outras dores, era para ele igualmente penosa, física; calava as palavras deixando um nó doloroso na garganta, atingia o peito de tal forma que, um dia, havia ido a correr para o hospital, com medo que o terrível adiamento etário dos problemas cardíacos o tivesse atingido também. “É só um ataque de ansiedade, vá para casa e descanse”, avisou o médico, sem imaginar que não se descansa daquilo que nos persegue diariamente, nos invade a alma e corrói os pensamentos. Nesse dia, no caminho para casa, não entendia o que lhe acontecia; olhava para trás e via onde estavam os problemas que a afastaram e que, provavelmente, não a fariam voltar, mas não tinha como lhe ter dito algo diferente, ou fazer agora aquilo para o qual ainda não estava talhado, e nem sabia se alguma vez estaria, e essa mistura explosiva do querer e não conseguir eram um carrossel desgovernado, do qual a sua mente tentava escapar, em vão.
A verdade é que ele se sentia um Peter Pan, com medo de deixar o tempo seguir o seu rumo, evoluindo, e crescendo, imperturbável, e revelar marcas tão próprias da sua passagem, não só na cara que fica pesada ou o cabelo que cai, e que o faziam parecer cada vez mais com o pai. Mas até que ponto ele queria abrir os braços a um futuro que, cortando com o passado, o levaria a sítios tão desconhecidos e, ao mesmo, desafiantes, tendo de tocar nas raízes de infância, para tratar de outras? “O crescimento é um processo gradual, e, acreditando em si, encontrará o que procura”, dissera-lhe uma terapeuta, há alguns meses, quando ainda acreditava que esse poderia ser o caminho… três sessões chegaram para saber que estava nele o trilho a seguir, e desistir da especialista… restava saber apenas onde o encontrar.

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2009/01/04

Asas I


RC
Era uma vez, num mundo muito distante, onde o chão é fofo e doce como o algodão que ela costumava comer nos arraiais populares quando era pequena e o céu, de dia, está sempre azul clarinho como a mais bela aguarela e à noite a Orion é a eterna rainha, dois seres que passavam os dias a rir, à gargalhada, tal qual quem nunca conheceu o temor das nuvens negras ou o frio das noites solitárias. Eram belas estas criaturas, com uns olhos grandes, com os quais viam longe e certeiro, enxergando claramente todas as cores do arco-íris, do outro lado do seu mundinho dourado. Tinham umas asas grandes, lindas, enfeitadas com pérolas dos deuses, muito brilhantes e leves, quase imperceptíveis ao olhar humano, mas que eles conheciam de cor e apontavam de olhos fechados. Com uma tez morena e umas vestes brancas, luminosas, quando apareciam o mundo parava para olhar a alegria que jorrava dos sorrisos contagiosos que transbordava da felicidade que sentiam juntos. Tudo era tranquilidade à volta deles, como se fossem uma energia só, prontos a viciar os outros de bem-estar. De manhã, costumavam voar até ao horizonte perdido, abraçados, usando cada um apenas uma asa, num voo de uma simbiose assustadora, até perderem a força e ficarem sentados, a descansar, conversando sobre tudo o que existisse, e, por vezes, até o que não existia era criado por eles. Quem olhasse ao longe, parecia ver apenas um, da perfeição de movimentos que ganharam do hábito de voar juntos. Muitos também tapavam a cara para não ver, dizendo com toda a franqueza, com medo de que, a qualquer momento, um balançar mais brusco os fizesse cair redondos no chão. Nunca tal acontecera, pelo menos não no tempo em que ela os conhecera, pelo menos não aí, não por voarem. Mas um dia, daqueles em que todos eram aconselhados a ficar no seu lar, fechados, porque forças maiores abririam buracos que só os mais experientes sabiam reconhecer e fechar, eles decidiram encontrar-se, no mesmo ponto de encontro, para passarem mais aquele obstáculo juntos. No auge da força da necessidade absoluta da união, não mediram o perigo e, a um bater de asas de se encontrarem, um forte clarão rompeu o chão e sugou-os fortemente, para uma atmosfera em que as suas asas eram inúteis, e os seus parcos conhecimentos de magia em vão. Ao fundo, uma paisagem, salpicada de verde no meio de um azul escuro, parecia ser demasiado dura para eles, que anteviam um fim doloroso na queda. Agarraram as mãos como se naquele segundo estivesse todo o tempo que estiveram juntos, e todo o que poderiam ainda estar, sentindo pelo menos a força de ficarem assim até ao fim. Mas, num segundo clarão, quase como se fosse propositado, são separados para terras distantes, verdes diferentes, com demasiado azul entre ambos, caindo num estrondo só, uma pancada feia, fatal para o comum dos mortais. Mas eles não o são... Ela caíra onde o tempo fica frio, e as folhas bicudas, parecidas com as agulhas que usavam lá em cima, de umas árvores pontiagudas, muito altas e temíveis, lhe abriram feridas nas costas infligindo uma dor aguda ao bater no chão, ele, longe, onde a visão se perde e o sol queima ardentemente, com a força de mil incêndios se debaixo dele, rodeado de bichos coloridos, e outros de aparência agressiva, que sentiu demasiado próximos na queda. Atordoados, abrem os olhos, silenciam para sempre as gargalhadas, e vêem a asa partida, uma apenas, a que não usavam nos voos a dois, sabendo que, nesse instante, iniciariam a busca da sua vida: encontrar a que lhes falta, sem a qual serão incapazes de “voar” novamente…

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2008/12/24

...

Não vejo. Não sei se por não ter como ou se por não querer. As estrelas vão alinhando à minha frente, mas será para mim que elas dançam, ou para outro tão cego quanto eu, que não vê o brilho que emanam? Ou será o cheiro? Não sei, eu não vejo. Nem sinto, não quero, nem sei se existo para querer. Ontem, no murmúrio de uma viagem, uma locutora duma rádio pirata fitou-me nos olhos, atravessou a minha cegueira e disse: vai e conquista! Mas seria para mim? Como, se eu estou mais cego do que aqueles que, por azar do Fado, tão português, traçado para eles, não podem efectivamente ver? Eu posso, mas não quero. Ver cansa, ver dói, ver dá trabalho. Observo os ponteiros que se sobrepõem, uma vez mais, nos meus dias, sei o que significa, mas quererei saber? Não quero… eu nem os vejo! São apenas um belo acaso que, em todo o caso, se deve ao atraso que lhes dei ao consertá-los. Fui eu que assim defini. Não te vejo neles, não podes ser assim, tão para mim. Ninguém pode, eu não mereço. Ou será que sim? Quem não vê, não sente… E eu não quero sentir. Quero passar o tempo anestesiado pela ignorância da escuridão, não daquele que não vê, porque esse vê mais do que eu, mas daquele que não quer, que esse não vê nem o mundo a desabar à sua volta. Não sente o frio, é mais fácil. O frio abre feias feridas na alma, e eu já nem sei se a tenho para sofrer com isso. Saí à rua a tropeçar em amoras silvestres que tenho de cuidar, para que o meu jardim não se torne mais seco e agreste que o Sahara todo ele num só pedacinho muito meu, mas como, se eu não vejo? Saberei tocá-las com toda a atenção devida, e alimentar os deuses e a minha força? Tenho medo de perdê-las, por isso cego, é protecção diária contra o que não sei se alguma vez saberei, ou chegarei perto. O meu coração bate, por elas, por ele, o pé, aquele que nasceu e cresceu, assim, porque tinha de ser, porque estava escrito. Mas eu calo-o… afinal, nem sei ler! Fico longe, assim, cego, perdido nos passos que não dou, nas palavras que não consigo discernir, nos olhares que não enxergo significado. Sinto muito, com a força dos abraços que te dou, mas temo, estou cego!

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2008/12/19

Brincadeiras...

A solidão é cada passo dado,
num barco velho e cansado que vai seguindo,
aquela luz trémula que mora ao fundo,
onde o mar parece petróleo escuro,
E o Sol se esconde do Mundo.

A vela, em vão, içada,
rasgada,desgastada, pelo vento,
que impiedoso passou, naquele momento,
em que muito era o alento,
e razão, pouca.

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2008/11/20

Nós, os Intes...

Enquanto uns se sentem invisíveis, eu passei a semana a questionar o que seremos nós efectivamente, os dos meios intes. Num famoso programa de TV diziam que os novos trinta eram os cinquenta, e muito do que referiram estava certíssimo, mas nem por uma vez referiram como ficam os vinte e tal nessa equação. Já não somos a rampa de lançamento para os estáveis trinta, com tudo definido, mas não podemos igualmente considerar-nos uma adolescência tardia, somos demasiado maduros para isso, pelo menos a maioria. Seremos então um mero gap caótico da adolescência à procura de nós mesmos que inicia nos trinta, o grupo invisível que vai lutando sem reconhecimento ou consciência de si? Ou o patamar essencial que é erradamente esquecido na análise da nossa evolução, fundamental para a descoberta do nosso eu?
Sendo nós os bebés Eco, os nascidos nos anos 80, somos uma geração diferente, transitória, de um tempo em que a vida aos 25 estava definida, para um estado em que a vida começa efectivamente aos 40. Mas, como em todas as transições, é este meio em jeito de cobaia, de ensaio, que tem de aguentar as indefinições do que já não é e do que não se sabe se irá alguma vez ser correcto ou definido. Uma amiga dizia-me “somos umas folhinhas ao vento, a aguentar o inverno todinho, com todas as chuvadas e ventanias”, como os que são criados para suportar intempéries, incertezas de uma existência que supostamente se atrasa. O que isto diz de nós? Que temos de ser a geração dos super-heróis, daqueles que se reinventam diariamente para descobrir uma forma milagrosa de encontrar o caminho certo. Somos os destemidos cidadãos do mundo, porque assim temos de ser, não porque nos sintamos mal no sítio onde estamos. Ainda assim, poucos são os que se lembram de quão importante esta nossa fase é, esquecendo-nos páginas a fio de livros técnicos de ajuda e de como se ser completo a partir dos 30, 40, 50… A verdade é que, sem saber como vamos, muitos sabemos para onde queremos ir, quem queremos ser ou o que recusamos na vida, mesmo que isso vá da ambição mais pequena à mais desmedida. Talvez nem precisemos mesmo desse tipo de literatura.
De salientar são também os nichos próprios das fases de passagem, de grupos que permanecem atrás, outros mais vanguardistas, e aqueles que não sabem onde se encaixar. Se há uns anos era o mais normal casar aos vinte e pouco, ter filhos antes dos trinta, com emprego e casa e roupa lavada, hoje a normalidade está dispersa em grupos bastante distintos e que se reconhecem com apenas uma observação atenta, sem análise detalhada. Ao grupo daqueles que não seguiram o ensino superior, normalmente, e que mantém fielmente esse padrão de outrora, vistos frequentemente nos passeios de domingo à tarde em casal, nos jantares a par em casa ou escolha conjunta de tudo o que um lar num futuro (próximo) precisa, opõe-se aquele que se acha ainda muito novo para esse estilo de vida, que não tem dia para sair, não pede a ninguém permissão, não se justifica e o nós que conhece é o de um grupo de amigos/as, únicos inseparáveis e insubstituíveis da sua vida. No meio estão aqueles que, apesar de manterem o padrão de relação, são aventureiros para escolher o enriquecimento da individualidade acima de tudo, atrasando por motivos de força maior a vida dos primeiros. São os que se integram tanto no primeiro grupo como no segundo, sabendo gerir muito bem o tempo e o espaço social e privado. Claro que isto é apenas uma generalização, não é um dogma, nem aplicável a todos, apenas ao mundo que me rodeia, por mais pequeno que seja, que eu gosto bastante de observar. Importante é esta diversidade de padrões deste “nós”, os de vinte e tal, parecidos com os de trinta e poucos vanguardistas e tão longe dos mesmos conservadores.
Recuso-me a considerar então que somos o patamar caótico, mas sim a essência daquilo que se seguirá, mesmo que ainda não nos dêem o devido valor, sabendo que será do que definirmos, em conjunto, que virá a próxima mentalidade. Dentro desta nossa incerteza temos os meios para escolher, agir, decidir, e nem todas as gerações podem orgulhosamente aclamar-se como detentoras deste poder, mesmo que invisível. Sempre me ensinaram que é impossível agradar a gregos e a troianos, portanto pelo nosso pé e a nossa vontade lá chegaremos, nem que para isso tenhamos de aguentar, ou até mesmo provocar, tempestades. Simplesmente porque nós, os de vinte e tal, podemos.

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2008/11/16

O que queres fazer quando cresceres?

Quando crescer quero voar. Não quero ser uma mera marioneta de um sistema pensado por aqueles que não me representam e me verga a uma existência obediente. Quero saltar. Não quero fazê-lo porque é assim que tem de ser ou pensar o que os outros já raciocinaram. O Mundo tem ainda demasiadas coisas a serem descobertas e criadas, e outras tantas que só eu sei... e só eu posso mostrar.

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2008/11/01

Sussurros na Noite

Todas nós vemos o rosto a ficar mais pesado, a pele a secar, os sulcos da idade mais carregados e o cabelo a cair, cada vez mais, como um grande Outono da vida. Todas sentimos a perda da elasticidade dos risos que outrora demos, das mãos que vão ficando brancas, das pernas que suportaram todo um percurso. Mas poucas são as que, no final do dia, ao descalçar o chinelo, que aquece o pé cansado do caminho a casa, respondem com satisfação à eterna questão “Será que fiz tudo?”.
Durante a vida, as opções são muitas. Às vezes tomamos o rumo correcto, noutras criamos um caos imenso, que nos sufoca diariamente. Aí sentimos que tudo perdeu a lógica, a coerência e importância do plano que rabiscámos numa mesa de café aos dezasseis. Quer pensemos numa vida a dois ou mais solitária, quer queiramos ser doutores ou aproveitar os dias na inércia amorfa, naquela altura tudo parece claro e intocável, como se ganhasse uma imunidade que nenhuma força terrestre pode abalar. Traçamos projectos, definimos princípios que juramos nunca violar, julgamo-nos deuses, criadores do magnífico, capazes de mudar o Mundo, temos asas poderosas que nos tornam imortais. Mas, naquele momento, ao descalçar o chinelo, o cansaço vence e esquecemos que já fomos rainhas, reis e deuses.
Olhamos à volta e vemos que, afinal, pouco foi o que mudámos; que o Mundo continua o seu curso, como um rio, que corre imperturbável por quantas pedras atiremos. A perna, que toda uma vida nos atormentou, estala... Acordamos para a realidade, essa foi a grande constante na nossa existência. Viramo-nos para o lado, na esperança que a dor que atacou o membro assombrado desapareça. Ao nosso lado os lençóis balanceiam-se num contínuo agradável; perdeu cabelo, ganhou uns quilos, mas mantém o mesmo ar, a mesma calma e tranquilidade quando vencido pelo sono. A dor parou, voltamos a divagar. A vida é como uma montanha russa, daquelas mais excitantes, tem altos, baixos, rectas, curvas e zonas que nos refrescam. Aproveitá-la-emos se mantivermos os olhos abertos, sentindo a ansiedade, a felicidade, o medo e a paixão forte, no prazer de saborear cada passo. “Terei feito tudo?”… A questão controla o universo, como se nesse instante a própria vida dependesse dessa resposta. Não queremos no entanto saber se fizemos “tudo”, mas se o “tudo” que fizemos foi o que nos tornou efectivamente o mais felizes possível. Viramo-nos mais uma vez. A idade já não perdoa os ossos e a hérnia acabou de nos relembrar da sua presença. Não foi convidada, mas fez questão de se juntar à perna maldita no nosso longo caminhar. Fechamos os olhos, relembramos à força o rabisco na mesa aos dezasseis, quando o nosso prazer estava em ouvir The Doors ao entrar pela noite, perdidos na magia das estrelas. Que princípios e ideais pelos quais nos batíamos? Que queríamos ser? Olhamos de relance a face serena ao nosso lado e pensamos: “Sim, aqui não me enganei…”. Fechamos os olhos novamente. “Mas como teria sido com os outros?”. Várias faces nos vêm à memória; João, o primeiro amor… “Como era mesmo?”. Não nos lembramos bem, nem sabemos mais a cor dos olhos dele, foi há muitos anos, cinquenta, pelo menos. Tiago, o amor dos dezasseis, o que ficou connosco para sempre na mesa do Mandarim, com quem partilhámos tudo pela primeira vez. Coramos. Aí a memória não nos falha, nem do sinal microscópico que tinha junto à sobrancelha, mais visível quanto mais irritado estava. Era rebelde, tinha sempre um casaco de cabedal com epítetos estranhos e o cabelo muito puxado para trás, era o terror dos pais. Tinha um perfume inconfundível, que se entranhava na pele e acompanhava para todo o lado. Inspiramos profundamente e… aah, quase sentimos o cheiro, como se nunca nos tivesse deixado. “Que será feito dele?” A última vez que ouvimos falar dele foi há tantos anos que nem nos lembrávamos já. Estava em Nova Iorque, a fazer o quê? Nunca soubemos. “Não estaria melhor com nenhum dos dois”, temos por momentos a certeza, barrando de imediato a entrada aos fantasmas da nostalgia. Tocamos levemente a mão daquele que sempre esteve ao nosso lado. “Está fria. Deixa-me aquecê-la”, pensamos, como se se tratasse de um assunto vital. Terminada a tarefa, aconchegamo-nos nos lençóis polares, fiéis amigos nas noites mais frias. Escutamos os barulhos da rua, em plena zona citadina, à espera do tal João Pestana, com quem tínhamos grandes aventuras quando ainda nem sabíamos ler.
As fotos dos netos estão cuidadosamente colocadas na mesa-de-cabeceira. Olhamos para eles; um casal, do primeiro casamento da nossa filha, que desesperadamente gostaríamos de ver acompanhada “com alguém que cuide dela quando desaparecer”, desabafamos, inquietas, com a almofada. Não a queremos ver sofrer, nunca quisemos, mas a vida às vezes é tão penosa… “e ela sabe-o tão bem…”.
Apodera-se de nós um longo suspiro. Tão forte que quase acordamos os fantasmas da casa inteira. “Já fomos muitos, agora somos só dois e, um dia, apenas um…”. Sentimos o sono a chegar, quase abruptamente, para nos levar junto de Morpheu, onde ainda somos jovens e temos novamente tudo a percorrer. Sem dar conta, adormecemos.

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2008/10/22

Quando é que deixámos de sonhar?

“ As gerações estão a degradar-se”, frase comum que me dizem cada vez que me queixo daquela dor nas costas que a minha mãe só teve aos 40, e a minha avó muito mais tarde. As dores que outrora eram características dos entas assombram impiedosamente agora os intes, sobre os quais muito pouca gente fala. Até os AVC e os problemas cardiovasculares parecem ter chegado mais cedo! Esta semana ouvi uma amiga a falar do peito descaído, das estrias, das celulites como uma força cruel, sugadora da nossa vivacidade... Mas pior do que isso, é estarmos a perder a coragem e a vontade que deveríamos ainda ter, e deixarmo-nos levar pelo comodismo cada vez mais cedo. Não devíamos ainda estar na idade que querer mais e melhor? De sonhar?
Esta semana parei para observar os que me rodeiam, mais perto ou mais longe, e cheguei à conclusão que, de facto, estamos a envelhecer cada vez mais rápido de espírito, enquanto escondemos as rugas com cremes milagrosos e tratamentos caríssimos. Desde quando é que as mulheres de vinte e pouco aceitam que os namorados gostem de outra pessoa sem refilar, sem lutar por isso, sem se darem uma hipótese de serem felizes com quem realmente gosta delas, única e exclusivamente?! Será o medo da solidão mais um fantasma que ataca pessoas cada vez mais novas? Habituámo-nos a ouvir que a vida é demasiado curta, mas não tanto. Acredito que ainda há vários caminhos a percorrer e várias portas que podemos escolher para sermos o mais felizes possível. Se alguma não for correcta, temos tempo para voltar atrás e abrir outra, o nosso prazo de validade não expira assim tão facilmente. Teremos desaprendido a respirar fundo e a acreditar mais em nós, não aceitando se não for o melhor, lutando até lá chegarmos? Estaremos assim tão dependentes de alguém para nos sentirmos completas e estáveis, esquecendo o que é gostarmos de nós ao espelho, mesmo sem alguém ao nosso lado, a acariciar-nos as costas? É bom gostar de alguém, e querer fazer tudo por essa pessoa, mas se não somos únicas, não haverá qualquer sentido numa entrega diária, completa, cultivando uma relação que nunca será aquela que esperamos, ou que tivemos um dia. A menos que estejamos totalmente felizes com a partilha do nosso par perfeito. Se assim for, nada a acrescentar.
Sinto o mesmo relativamente à nossa apatia perante o emprego. Não sei se será por estarmos em Portugal, terra que em 2009 terá um crescimento nulo e onde o desemprego aumentará, mas olho para muitas caras e em vez de garra, vejo monotonia. Em vez de ambição, a acomodação total a um trabalho cuja remuneração alimenta o suficiente, com um horário de função pública, sem exigir nada mais, pelo menos nada daquilo que sonhámos nos sweet little sixteen. Quando é que a nossa meta começou a ser não sair do nosso mundo mais do que 100 Km, chegar a casa às cinco, receber mil e poucos euros, sentar a ver a bola e fazer isto, todos os santos dias, mesmo que tivéssemos sonhado com algo bem melhor? Não estou a dizer que as pessoas devam ser insensatas, redes de seguranças não há muitas, mas se as temos, porque não, pelo menos, almejar por algo mais e, enquanto não temos crianças a nosso encargo, como a maioria de nós, os da faixa dos vinte e tal, arriscar. Apenas isso, arriscar. Tendo um porto seguro como muitos dos apáticos desta terra têm, porque não simplesmente voar?! Pode não ser indolor… mas caramba, não nos fará melhor ao espírito, quando, aos cinquenta, olharmos para trás e virmos que, no mínimo, tentámos?
Sou adepta do relativismo cultural, e, da mesma forma, aceito qualquer ideia de assentar aos 25, de estagnar pelo mais fácil, ou simplesmente deixar de lutar e de acreditar que é possível estar melhor. Mesmo não sendo aquilo que eu quero para a minha vida (apesar de como todas nós esperar por aquele que me acompanhará nas minhas aventuras, nem que precise de tempo para lá chegar), acredito que há pessoas que o desejam. Mas, mesmo assim, olhando para as asas fechadas que me rodeiam, só me apetece questionar: Quando é que raio deixámos de sonhar?

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2008/10/15

Conexão Edimburgo-NY II

Naquele quarto na zona oeste, pertinho do edifício espelhado das Nações Unidas, enquanto abria a mala de uma recém chegada a uma cidade misteriosa, ela recorda todos os passos que a levaram até lá. Olha para a paisagem totalmente diferente daquela a que estava habituada no seu país à beira mar plantado, e, na sua mente, frames das escolhas que fez vão passando à sua frente. A viagem tinha sido calma, o grande desafio de uma vida naquele mundo ainda não tinha mostrado toda a sua força, e a anestesia ainda de tudo o que estava para trás tornava-a um ser mais resistente do que talvez seria. Ao retirar as roupas, uma a uma, para o pequeno armário, já antigo, mas suficiente para o início de uma nova aventura, deparou-se com a fotografia que mais gostava daquele que tinha ficado do outro lado do oceano - uma, a caminho da universidade escocesa, onde passou seis meses inesquecíveis, que uma amiga lhes tirara por trás, num dia em que tudo neles conjugava, desde as cores que vestiam, ao pequeno toque de mãos enquanto caminhava, já que ambos nunca tinham sido pessoas de grandes demonstrações públicas de carinho. Aquele quadro, muito bem desenhado, reflectia a calma das caminhadas da dupla, fosse nas voltas pela cidade, ou pelas viagens que fizeram juntos, numa simbiose perfeita.
Antes de viajar, pensara muito nas consequências que esse passo traria àquela relação, e à sua vida. Esteve ainda bastantes meses no seu regresso a casa parada, a reflectir, à espera, que Edimburgo fosse mais perto, ou que o tempo acelerasse o reencontro, desejos impossíveis de realizar e ela sabia-o. Muitos haviam sido os dias em que passava à frente do computador, sozinha, sem saber se era melhor responder ou cortar o cordão que os unia. Também não queria ser ela a desistir dos sonhos que construíram juntos, e que um passado mal resolvido e uma culpa imponente minavam diariamente. Acima de tudo ela reconhecia que mais do que os quilómetros que os separavam, tinham vidas bastante diferentes, que os afastavam tanto quanto os aproximavam, e isso era o mais difícil de gerir. Sabia que muitas vivências que teria seriam melhores se partilhadas com ele. Aliás, a partilha e comunicação tão característicos deles eram algo que ela adorava, especialmente nas manhãs em que se cumprimentavam e contavam os sonhos alucinantes que ambos tinham tido, desde os jogos de futebol perdidos às lutas pela sobrevivência em castelos escuros e sangrentos, invadidos pelas hordas de monstros mágicos que viam nos filmes ao domingo à tarde, ou liam nos livros de génios da criatividade. Como se compreendiam… soltado num suspiro imenso, enquanto arruma a foto numa das gavetas da mesa-de-cabeceira daquele quarto demasiado branco, que teria de decorar com as cores fortes, das quais precisava para acordar com força todos os dias. A separação não foi fácil, e sabia que ele estava com outra pessoa, numa escolha mais difícil do que a sua, num risco capaz de perder tudo o que tinha de mais bonito. Mas a decisão estava tomada e era do futuro o timing certo que os esperava, ou não.
Retirou da mala um a um os vestidos que a faziam sentir feminina. Tinha dentro de si demasiadas personagens, que se completavam, e coexistiam agora numa paz que transparecia a todos que a conheciam. Era ora feminina e bastante sensual, ou punha uns ténis e deixava dominar a criança brincalhona e alegre que sempre havia sido. Na maior parte dos dias conseguia conciliar ambos, forçando a aparecer o sorriso que ameaçava desistir nos dias mais escuros, cobertos por uma densa nuvem negra, visível apenas aos olhos dos mais atentos. Com ele sempre conseguiu libertar todas as personagens que habitavam dentro dela, e sentia no olhar dele um agradecimento eterno, por ser como é.
Com o quarto parcialmente arrumado, com aquele toque que a mãe dizia que dava a todos os seus espaços, decidiu sair à rua, e conhecer a cidade que nunca dorme. Precisava de Nova Iorque mais do que no emprego precisavam dela. Ao contrário da maioria das pessoas, quanto mais rodeada de gente precisasse de estar, mais significativa era a solidão que sentia, sabendo que a paz, essa, encontrava-a nos momentos em que estar sozinha, sem fantasmas do passado, era uma delícia passada sem dar conta, naqueles 25 anos que já pesavam nas rugas dos olhos dos risos dados, das mil e uma expressões que tinha, das ansiedades que por vezes eram mais que muitas.
Desceu as escadas em madeira daquele prédio que se assemelhava àqueles que via nos filmes e nas séries da Big Apple. Era Janeiro, estava um frio tenebroso, e ele não estava lá para aquecer as mãos inevitavelmente geladas. Ia conhecer o edifício onde iria trabalhar no próximo ano… Que rumo teria a sua vida, a partir daquele dia?

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2008/10/14

Caminho para o Jardim - Final

No desespero daquela queda que o levará ao único fim inevitável, Rigel sente duas mãos, bem diferentes, a segurá-lo por momentos. Estagnados, em margens opostas do abismo que enfrentava o seu pequeno pé-de-amora, os deuses que o haviam criado fitavam-se sem se mexer, esperando o momento em que um deles soltasse a planta, permitindo assim a sua sobrevivência. De um lado, uma figura feminina, cabelos longos e cristalinos, como se por ela descessem suavemente milhares de flocos de neve, nenhum igual, todos perfeitamente desenhados; as mãos frias mas carinhosas, espelhavam aquele ser, o Gelo personificado, magnificamente poderoso e belo; a tez tinha um toque dourado, misturado com o rosa de uma orquídea real, sensual e macio, por onde os dedos não se cansam de percorrer. De outro, um deus magnânimo, de horizontes mais quentes. O cabelo pareciam chamas de uma fogueira de Julho, que calmamente faz crepitar as Flores da Escócia, cujo estalido era, nas noites quentes dos santos, o prenúncio de amor correspondido nos corações dos mais novos; o olhar transmitia a força do oceano que o acompanhava sempre, num tumulto apaziguado há muito dentro dele, onde, quem o olhasse atentamente, encontraria a paz nos dias mais conflituosos. Tentando conter a paixão louca que poderia naquele momento matar o que tinham cultivado, tentam a todo o custo segurar, sensatamente, o elo que os unia, que simbolizava o tempo em que conseguiram unir almas e corpos, numa simbiose invejada por muitos, temida por tantos outros. O Tempo, inimigo cruel das divindades, afastou-os, esperando na separação um esquecimento gradual e a perda das memórias conjuntas, enfraquecendo-os, guardando para si a Felicidade que poderiam criar. Munch, que tanto desafiava Rigel, aliou-se ao Tempo para aprisionar um dos deuses, embrutecendo-o, e apagando da sua mente os momentos em que a perfeição era possível, e atingível, todos os dias. Remetida ao seu palácio feito de sombras e luz, a deusa foi mantida em cativeiro, comunicando com a metade que a completava, através dos sonhos da planta que os unia. Cansada, nos poucos dias em que tudo era mais forte do que a força que a caracterizava, decidia abrir os olhos e deixar de sonhar, de comunicar, de aguentar o barco que andava há demasiado tempo à deriva, sem chegar a si, sem chegar ao rumo, afundando cada dia um bocadinho mais no lodo da monotonia e do comodismo da vitória de Munch e do Tempo. Abrir os olhos agora seria fatal para a pequena planta…
Assim que o Sol se levantou, o Jardineiro e os filhos, com o rádio a pilhas que os acompanhava sempre, prepararam-se para voltar àquele jardim, que deixaram para irem de férias. Secretamente, desejavam que, ao regressar, todas plantas tivessem sobrevivido aos dias sozinhos. Abrem a porta de ferro meio enferrujado, com motivos árabes, por onde passa rapidamente um gato preto, luzidio, que tão bem conheciam. Afagaram-no por momentos, era o porteiro fiel das visitas àquele paraíso. A uns passos da entrada, encontram uma lagartixa num pranto invulgar, mágico, como se alguém lhe tivesse tocado o lado mais negro dos seus sentimentos, dando-lhe formas de expressar a dor nunca antes vistas. Ao lado, em paz, caída no chão, uma planta linda, com uma flor de uma beleza rara, deixara de sentir o vento e o sol, o calor daqueles dias de Outono, e já não temia o frio do Inverno que se aproximava. Rigel morrera.

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2008/09/28

Tango Fire


DR

O vermelho e o negro entram em total harmonia com os corpos apaixonados que se movem freneticamente. Com a delicadeza de uma paixão contida, ele percorre suavemente a linha do peito da mulher que, em delírio, o deixa tocar o calor infernal que a envolve em chamas. Absortos naquele momento de cumplicidade única, permanecem estáticos, sentindo cada bater dos dois corações, cada palpitar de sangue naquelas veias. Num instante agarram as mãos um do outro, deslizam com a graça de dois pássaros que se cortejam, sendo dos olhares a guerra travada entre desejo e privação. As gotas de suor deslizam, unindo-se na queda, já distantes daqueles que se completam e amam, sem cair na tentação. Firmemente ele agarra-a pela cintura, eleva-a à glorificação de um corpo em delírio, que, em todo o seu esplendor, faz movimentar por uns abdominais e braços firmes, seguro de agradar a mulher que comanda. Os cabelos seguem as delícias dos amantes, que ora se aproximam e estagnam, num quase roçar permanente dos lábios, ora se afastam, dando liberdade ao pudor que os consome. E numa batalha constante, entre ardor e acalmia, entre desejo ardente e suplício clerical, nasce a sensualidade daquele a quem todos chamam: o Tango.


(Tango Fire - O espectáculo que fui ver ao Casino esta semana... muito muito bom)

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2008/09/22

Conexão Edimburgo-NY I

Levantou-se rapidamente para descer até ao rés-do-chão. O Sol ainda mal tinha despontado, mas ele sabia que ia ser um dia em cheio, daqueles em que o tempo passa a correr e o que fica para tudo o resto é demasiado escasso. Por isso tinha de correr antes que a figura que dormia ao seu lado acordasse, antes que os que os acompanhariam na jornada dessem pela sua súbita vontade de manter o contacto com aquela que fazia o coração bater, e a alma voar. Ligou o computador com a calma de um silêncio obrigatório, suavemente puxou a cadeira para trás e sentou-se apenas na ponta, aquela que não o comprometeria com barulhinhos estranhos. Seriam apenas insónias que o levariam até à frente do logótipo do sistema operativo que ia carregando, reflectido nos olhos raiados do sono, ou da ansiedade? Ou precisaria ele de saber que, não seria ele, um único dia, a largar o fio que os agarrava, distantes, e tão perto como da primeira vez que dormiram juntos sem se tocar? Não conseguiria voltar ao computador mais tarde, não poderia falhar. Recorda, enquanto abre a barra de tarefas nos tons cinza que escolheu para o seu ambiente de trabalho, essa noite; estava muito frio, aquele frio que normalmente toca Edimburgo, com um nevoeiro húmido, propício a todas as histórias contadas por gerações sobre assassinos e fantasmas. Aquela estava particularmente gélida, e juntarem-se nos lençóis polares, a grande salvação nos momentos em que o aquecimento da casa decidia tirar férias, era a única possibilidade de a aguentarem. No dia seguinte jogaria o Celtic e, como bom detentor do estatuto de sócio, juntar-se-ia a mais três ou quatro amigos no evento, deixando-a a dormir, descansada, sem imaginar que essa seria a última vez que conseguiria sair sozinho dessa cama. Actualmente estavam separados, mais pela força de tudo o que os distinguia do que o que sentiam, e ambos sabiam disso. Edimburgo parecia, sem ela, uma cidade abandonada, na qual estava a tentar readaptar-se à vida anterior, aquela onde nunca havia sonhado com a existência de mundos onde o céu e a terra se tocavam, onde na loucura da diferença surgia a unicidade de dois seres em total sintonia, quase mágico. Relembrava a quantidade de vezes que olhava para os olhos dela em êxtase na rua principal que descia do Castelo, aos primeiros acordes de uma gaita-de-foles, tocada por um escocês vestido a rigor, sempre no mesmo sítio, perto do caminho estreito que levava à Universidade. Era nos pormenores que ela ganhava a todas as outras, e em conjunto, despertava nele tudo o que queria ser. Abrir o explorador de Internet não foi difícil, felizmente a evolução da Internet poupou-o dos sons irritantes dos modems de outrora, e eis que poderia na sua simplicidade, dizer em poucas palavras, as que usava normalmente, já que não era pessoa de grandes declarações ou floreados, dizer um “estou aqui, estou a pensar em ti, não te esqueço”, mascarados por detrás de um comentário qualquer de mais uma curiosidade que só ela entenderia. Sempre haviam comunicado muito mais por metáforas, entendendo-se nos códigos completamente ininteligíveis para os outros, do que nos rituais banais daqueles que se adoram. Haviam sempre fugido do romantismo fantasioso e fantasiado por horas dispendidas à frente de filmes e histórias ficcionadas, tinham uma dinâmica muito própria que transparecia a todos os que os conheceram. Carregou o enter para o envio do email e desligou numa correria o computador, não fosse aquela com quem estava agora acordar e entrar subitamente nos meandros daquela mente complicada. Tinha sido durante muito tempo a pedra basilar da sua noção de relação a dois, não podia sentir que tinha sido ele a estragar tudo. Subiu as escadas para o quarto a pensar nos quilómetros que os afastaram com a viagem daquela cujo sorriso não esquecia, e a saudade só aumentava, para o outro lado do oceano, e naqueles que ainda faltavam para voltarem a encontrar-se. Esperava, todos os dias, especialmente aquele que tinha pela frente, aguentar o dilema que o desgastava, do qual não poderia soltar-se levianamente. Teria forças para deixar tudo e voar até onde a aventura do desconhecido o poderia engolir de um só trago, e ao mesmo tempo dar-lhe muito mais alegria do que poderia imaginar?

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