2008/04/01

Parágrafo Perdido

DR
Deixou de ser a pequena rã divertida que saltitava na garganta, para passar o tempo perdido no cordão meio rasgado que teimava em não romper. Gritava no meio do múrmurio vazio e silencioso sem ninguém lhe prestar a menor atenção, longe da realidade que, ao longe, seguia o seu rumo pacificamente. O tempo havia sido cruel consigo e com tudo o que o envolvia e do qual se poderia orgulhar como seu, restando-lhe apenas o ar de um ser moribundo, colado ao vento que passou, e não voltaria mais. Cada momento mais mexido abanava o dito fio laço que o sustinha, canal resistente que prendia à vida aquela existência já fraca e doentia. Há muito que perdera o sentido da costa, da frescura da humidade no dorso rasgado pelo Sol que o queimava ferozmente. O iodo teria ajudado a cicatrizar as feridas mortais, mas desde que o olhar da divindade marítima se havia movido, nenhuma onda ou poça esquecida por ali tinha passado, ou ficado. E existia assim no esquecimento, passado, lugar confinado àquele cordão, onde, tranquilamente, deveria ficar.

Etiquetas: